Carregando

Undime Sudeste: orientações para a educação e crise do coronavírus

11/05/2020 | Conviva Educação

Vilmar Lugão de Britto é presidente da Undime Região Sudeste desde 2017, representando na diretoria executiva da Undime os quatro estados da Região: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Foi Dirigente Municipal de Educação (DME) de Jerônimo Monteiro (ES) nos anos de 2010 a 2012 e, em 2017 retornou à gestão do mesmo município, no qual permanece como dirigente até hoje (saiba mais sobre sua trajetória profissional nesta reportagem de 2018 e na de 2019).

Abaixo, Vilmar contou ao Conviva os desafios para lidar com a suspensão de aulas e o avanço do novo coronavírus, e quais iniciativas têm sido tomadas. Nas próximas semanas, veja entrevistas realizadas com os presidentes das demais regiões brasileiras (o texto sobre o trabalho de Carlos Lobo, presidente da Undime Centro-Oeste, já está no ar).

Acompanhe na área de Combate ao Coronavírus do Conviva informações, área de fórum e iniciativas que colaboram com a educação neste momento da pandemia de coronavírus.

De que forma a educação de Jerônimo Monteiro, município em que é DME, está enfrentando a crise atual causada pela pandemia de coronavírus?

As aulas estão suspensas desde 23 de março, assim como as da rede pública estadual. Como percebemos que a crise ia ser longa e as paralisações deveriam permanecer por mais tempo, fizemos reuniões com a equipe diretiva e professores para pensar em encaminhamentos e discutir de que forma seriam realizadas atividades com os estudantes, e foi publicada uma Portaria a respeito. É essencial regulamentar as mudanças e dar legalidade às ações!

O primeiro passo da Secretaria foi verificar, utilizando a ferramenta Google Formulários, quais recursos tecnológicos as famílias dos estudantes tinham disponíveis. Sabendo que cerca de 90% tinha acesso ao Whatsapp, as escolas foram orientadas a criar um grupo de cada turma vinculada ao seu professor e passou-se a manter um diálogo mais constante com as famílias e a enviar por mensagens atividades para os estudantes. Em 14% dos casos, as famílias solicitaram receber as propostas por e-mail. Sabemos que há um grupo de alunos que não tem acesso à internet: estamos mapeando quem são para que um carro da Secretaria se desloque até as comunidades e leve os materiais impressos. O importante é que o máximo de alunos tenha acesso. Com essa ação, já chegamos a praticamente 100% das famílias. Temos reunido com a equipe da SME e das escolas de maneira remota e estamos monitorando cada caso. Somos uma rede de aproximadamente 1.400 alunos, distribuídos em escolas urbanas e rurais.

 

Qual a diferença da abordagem para as turmas de Educação Infantil e de Ensino Fundamental?

Com toda a rede, o objetivo principal é manter o vínculo do aluno com o processo educativo e a escola. Para as crianças de creche, nos 30 primeiros dias de suspensão das aulas não foram enviadas propostas, mas iniciamos as orientações aos pais na semana de 27 de abril. Para a pré-escola, a intenção das atividades é também promover o envolvimento dos responsáveis com seus pequenos. Os educadores enviam para as famílias materiais com roteiros de atividades, vídeos, propostas de brincadeiras, jogos, atividades recreativas e histórias infantis. De maneira articulada com essas histórias, também já foi solicitado por exemplo, que as famílias produzissem com as crianças brinquedos com sucatas.

Já no Ensino Fundamental, as atividades são de revisão de assuntos já vistos, sem a introdução de conteúdos novos, e que permitam a realização com autonomia pelos alunos.

 

De que forma a comunidade escolar foi comunicada sobre essas iniciativas?

Utilizamos diversos canais: escrevemos cartas para as famílias, dei entrevistas para a rádio local, divulgamos nas redes sociais através de vídeos gravados. Precisamos garantir e manter esse canal aberto: diálogo com as famílias e o vínculo com a aprendizagem.

 

Qual o cenário da educação dos municípios do Sudeste, região em que o senhor é presidente da seccional da Undime?

A Undime tem sido mobilizadora dos processos de organização e fonte de esclarecimentos para as equipes. Cada município tem sua autonomia de implementação, mas procuramos promover o diálogo e manter a coerência das ações. Neste momento de suspensão de aulas, temos discutido durante reuniões semanais com as presidências estaduais e junto à presidência nacional da Undime sobre a importância da manutenção de um vínculo educativo para todos ou a maior parte dos estudantes, para que as perdas na aprendizagem não sejam ainda maiores.

Estamos vivendo um processo inédito, construindo a história, executando e avaliando as ações em tempo real. Não é simples tomar decisões neste cenário, mas como a suspensão de aulas deve se prolongar, não podemos ficar parados e apenas esperar o tempo e os efeitos da pandemia passarem. Além de garantir o contato do aluno com o processo educativo, também nos preocupamos com os servidores. Sabemos que o vínculo trabalhista prevê a continuidade da prestação dos serviços por parte dos Educadores. Não somos contra a EAD, mas entendemos que na Educação Infantil e no Ciclo de Alfabetização por exemplo, as interações que são estabelecidas entre o professor e o aluno e deste com o objeto do conhecimento são essenciais. Não defendemos o uso da EAD nesta etapa, mas a realização de atividades orientadas em que o aluno possa ter sua autonomia e garantir esse vínculo entre a aprendizagem e a escola. O direito a um processo educativo de qualidade e para todos é a nossa defesa.

 

Quais pontos as secretarias estão enxergando como urgentes para os próximos passos? E a médio e longo prazo, o que está previsto?

São diversas e complexas questões, então elas não podem ser analisadas de um só prisma. Também existe a preocupação neste momento com os contratos do pessoal que trabalha quase que exclusivamente com as crianças, como os cuidadores dos estudantes com deficiências, os motoristas que não são terceirizados, os monitores da creche. Ainda há a indefinição sobre a diminuição da arrecadação dos impostos municipais e consequentemente do Fundeb. Outra questão é sobre a adequação do calendário escolar nos diferentes contextos do país: com a flexibilização dos dias letivos, mas a manutenção de um mínimo de 800 horas, de que forma será possível cumprir essas horas letivas no ano se, por exemplo, o professor tiver dois vínculos e não puder estender seu tempo com a turma? Como organizar o espaço escolar em instituições que compartilham salas em diferentes turnos, já que a realidade da grande maioria é de jornada diária em tempo parcial? E como manter as crianças de educação infantil por ainda mais tempo diário na escola? Portanto, são diversos cenários que buscamos respostas para os desafios.

Também é importante pensar de que forma será feito o acolhimento dos professores, dos alunos e das famílias quando as aulas forem retomadas, porque os impactos, inclusive psicológicos, poderão ser grandes. E é essencial pensar em estratégias para evitar a evasão escolar.

 

Quais cuidados estão sendo tomados com a alimentação escolar e com os contratos firmados, como os relativos a obras e transporte escolar?

Sobre a alimentação: quando foram publicadas as mudanças do Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE, passamos a seguir as orientações do FNDE. Realizamos diálogo com o Ministério Público (MP), bem como com o Conselho de Alimentação Escolar (CAE) para distribuir os gêneros alimentícios que estavam em estoque, antes da data de vencimento para não ter desperdício. É necessária muita cautela em todas as ações a serem adotadas, pela responsabilidade que temos e também por ser ano eleitoral.

Sobre os contratos com o transporte: em meu município eles estão suspensos, porque o valor pago ocorre pela quilometragem rodada, então o fornecedor já estava ciente dessa posição. Outros municípios preferiram interromper o serviço realizando algum ato oficial. As obras continuaram e respeitam as regulamentações estabelecidas nos Decretos, os critérios de cada empresa e as leis eleitorais.